2 de set. de 2022

A economia das favelas e sua força

 


A economia das favelas e sua força


Editorial

Publicado em 02 de Sep de 2022


As favelas são territórios da urbanidade onde as carências e necessidades sociais se mostram muito mais flagrantes. Mas, longe de negar a demanda que o Poder Público deveria atender sempre como prioridade (saneamento, educação, emprego), as favelas não são apenas miséria, violência e tragédia. Inclusive, há soluções que nascem delas. Onde há pobreza também existe o senso de oportunidade. Que se fortalece pelo empreendedorismo.


Há milhares de boas ideias fazendo e acontecendo no interior de uma favela. Novos negócios, em escalas diferentes da régua das classes mais atendidas, que também pulsam e transformam as pessoas e as rotinas desses ambientes. As ousadias e inovações econômicas nascidas no interior de uma comunidade talvez só precisem de um olhar mais atento para serem percebidas, replicadas e ajudarem a transformar o contexto. Se bem aproveitadas, podem até extrapolar os limites geográficos e valer para uma metrópole inteira.


É o que o quarto e último episódio da série Retomada da Economia, publicado ontem na edição impressa do O POVO ("Um país chamado favela: moradores assumem protagonismo nos negócios", da repórter Carol Kossling), ajuda a confirmar. As favelas são muito mais perspicazes e sagazes do que pensam a respeito delas. E há soluções que podem ajudar a economia nacional a partir da inteligência circulante das favelas.


O Brasil tem hoje 13.151 dos chamados aglomerados subnormais, o dobro do que havia uma década atrás (6.329 em 2012), com 17,1 milhões de moradores em 5 milhões de domicílios. A pobreza e a extrema pobreza são flagrantes, precisam ser amparadas. Mas esses lugares, juntos, movimentam R$ 180,9 bilhões em renda própria.


É uma cifra relevante. E, conforme o Instituto Data Favela, 76% desses moradores têm ou já tiveram a intenção de empreender. Mas que, pela falta de capital de giro, sem emprego formal, com menos tecnologia, têm mais dificuldade de se oportunizar.


As favelas querem ser acolhidas e assistidas por políticas públicas, mas querem fugir dos estigmas. Há uma economia viva, muito viva, nas favelas, que se abastece e se afirma em seus próprios mecanismos. Empreender pode ser desde a venda do espetinho, da costura, da lojinha e do carrinho de lanches, do frete dentro do bairro, até o desenvolvimento de jogos eletrônicos, à capacitação de mão de obra feminina ou a projetos de autoestima.


Quando o acesso à Internet é dado - por exemplo, com a distribuição de chips e gratuidade de sinais wi-fi - a educação e a economia podem ser expandidas na mesma proporção.


Pelo instinto de sobrevivência, o(a) empreendedor(a) da favela sabe muito mais, na linguagem simples e sem sinônimos, como "se virar", como "dar seus pulos". Faz o dinheiro ter e ganhar ainda mais valor. As comunidades sabem encontrar suas soluções onde os de fora só conseguem enxergar cenários de problema.


A favela também é um lugar das oportunidades e há gente que quer apenas uma alavanca para construir sua própria história. Como protagonista


https://mais.opovo.com.br/colunistas/editorial/2022/09/02/a-economia-das-favelas-e-sua-forca.html   

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