24 de out. de 2026

Prosperidade sem rede: Estado mínimo, dívida e bem-estar no Brasil

 

Prosperidade sem rede: Estado mínimo, dívida e bem-estar no Brasil

O Brasil abraçou a ideia da prosperidade individual. Antes de abraçar também o Estado mínimo, vale perguntar quem fica sem rede quando a aposta não dá certo.

https://bernardocarvalho.substack.com/p/prosperidade-sem-rede-estado-minimo?r=2ld5eo

Bernardo Carvalho

Oct 21, 2026

 

Em julho de 1994, eu estava na Galeries Lafayette, em Paris. Só olhando: o dinheiro não dava para quase nada. Em determinado horário, os funcionários começaram a se preparar para ir embora, sem se preocupar com os clientes que ainda poderiam comprar algo antes de a loja fechar. Achei aquilo esquisito. O discurso do “desrespeito ao consumidor” estava na ponta da língua.

 

Galeries Lafayette Haussmann – Creative Commons

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Passado algum tempo, entendi o que tinha visto. Os trabalhadores franceses são muito conscientes de seus direitos, e essa consciência se espalha pela população, como contribuintes e como usuários dos serviços públicos. É o que os franceses chamam de droits acquis, direitos adquiridos.

Trinta anos depois, o Brasil vive o movimento oposto. Cresce aqui uma cultura da prosperidade individual, com certa rejeição à CLT. Muita gente prefere ser entregador ou motorista de aplicativo, ou abrir um MEI. Nas eleições, ganham projeção políticos que associam essa prosperidade a uma proposta radical de menor participação do Estado.

A sociedade mudou, de fato. Este artigo não discute se a mudança é boa ou ruim. Discute uma pergunta mais concreta: considerando as fragilidades históricas do Brasil, quais são os riscos de uma opção política pelo Estado mínimo, e o que acontece com quem tentar empreender e não conseguir? No caminho, olho para a dívida pública, para os programas em disputa no segundo turno e para a encruzilhada em que a própria França se encontra hoje.

A sociedade mudou, mas nem sempre por escolha

Desde a Revolução Industrial, cada pessoa se colocava, ativa ou passivamente, em algum ponto de uma escala de empregabilidade. Para os menos qualificados, o leque sempre foi estreito: subocupações e trabalhos de baixa remuneração. Para os mais qualificados, o caminho natural era a grande corporação, do nível administrativo ao executivo.

Esse modelo perdeu força. Mas os dados sugerem cautela antes de ler a mudança como pura preferência pela autonomia.

Segundo a PNAD Contínua sobre trabalho por plataformas, divulgada pelo IBGE em setembro de 2026 com dados de 2025:

  • cerca de 2 milhões de pessoas trabalharam por aplicativos em 2025, a maioria por conta própria (Tribuna PR);
  • o motivo principal declarado foi não conseguir encontrar outro trabalho;
  • a jornada média foi de 44,7 horas semanais, contra 39,3 dos demais ocupados;
  • o rendimento por hora ficou em R$ 16,2, 12% abaixo dos não plataformizados;
  • 72,1% estavam na informalidade e apenas 34% tinham cobertura previdenciária (O Povo+).

 

Rio de Janeiro (RJ), 28/11/2025 – Entregadores fazem manifestação contra novas modalidades de entrega do aplicativo Ifood, na Cinelândia. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Há ainda um traço pouco discutido. Entre os plataformizados, 62,7% trabalhavam exclusivamente por aplicativos e 62,5% usavam uma única plataforma (Movimento Econômico). Na prática, muitos “empreendedores” têm um único cliente, que fixa o preço sozinho. Isso se parece mais com monopsônio do que com livre mercado.

A rejeição à CLT é, portanto, uma combinação de aspiração genuína com falta de alternativa. A narrativa da prosperidade dá sentido a uma situação que, para muitos, é de necessidade. Isso importa: políticas desenhadas para quem empreende por escolha falham quando aplicadas a quem empreende por falta de opção.

Uma distinção é necessária antes de seguir. “Governo liberal” e “Estado mínimo” não são a mesma coisa. O primeiro envolve abertura, segurança jurídica, simplificação e competição. O segundo envolve a retirada do Estado da saúde, da educação, da previdência e da regulação. Os riscos que discuto a seguir se referem sobretudo ao segundo.

Os riscos do Estado mínimo num país de fundações frágeis

O Brasil carrega os efeitos da escravidão, a corrupção endêmica, uma educação que produz analfabetismo funcional e uma desigualdade persistente. Nesse terreno, a retirada do Estado tem riscos concretos.

1. O mercado amplifica o ponto de partida. O mercado remunera capital humano, capital financeiro e redes de relacionamento. No Brasil, esses três ativos estão distribuídos segundo a herança da escravidão: uma abolição sem terra, sem educação e sem indenização. Retirar o Estado não cria igualdade de oportunidades. Cristaliza a desigualdade das dotações iniciais.

2. Menos Estado não significa menos corrupção. A corrupção brasileira é sintoma de patrimonialismo, a tradição analisada por Raymundo Faoro em Os Donos do Poder, e não apenas do tamanho do Estado. Com instituições fracas, o Estado mínimo tende a produzir privatizações com reguladores capturados e um corte seletivo: caem os serviços de quem não tem lobby, ficam os benefícios de quem tem. O resultado seria o pior dos mundos: Estado mínimo para os pobres, Estado máximo para os organizados.

3. Desmonte desordenado. A Constituição vincula receitas e protege direitos previdenciários. Na prática, o ajuste tende a recair sobre o que é discricionário: investimento, ciência, fiscalização, manutenção. O desfecho provável não é um Estado pequeno e eficiente, e sim um Estado ainda caro, mas sem capacidade operacional.

4. Federalismo assimétrico. Municípios de periferia metropolitana e do interior dependem de transferências como FPM e SUS. Aparecida de Goiânia, onde atuo como conselheiro de uma ONG que cuida de crianças de baixa renda, é um caso típico: alto crescimento populacional e base fiscal própria limitada. Um encolhimento federal desce em cascata para quem tem menos fôlego.

5. O vácuo territorial. Onde o Estado sai, alguém entra. No Brasil urbano, esse alguém já tem nome: milícias e facções que vendem segurança, gás, internet, transporte e crédito. Não é um risco teórico.

O segundo momento: quando o empreendedor não consegue

O que acontece com quem quer empreender, mas não consegue? A resposta tende a vir em fases.

Primeiro, a descapitalização silenciosa. Na pesquisa do Sebrae sobre sobrevivência de empresas, o MEI tem a maior mortalidade em cinco anos: 29%, contra 21,6% das microempresas e 17% das de pequeno porte (Agência Sebrae). Entre os que fecharam, cerca de 34% acreditam que crédito teria evitado o fim, mas só 7% pediram e conseguiram (Fenacon).

O mecanismo menos visível é o consumo do próprio capital. O motorista de aplicativo raramente contabiliza depreciação, manutenção e seguro do veículo. A renda aparente inclui a liquidação lenta do ativo. Quando o carro precisa ser trocado, não há reserva, e vem o endividamento caro.

Depois, o choque de saúde sem rede. Um acidente de moto ou uma doença crônica, sem contribuição regular, significa nenhum auxílio-doença. Hoje o SUS absorve o custo médico, e a família absorve a renda perdida. Com um SUS enfraquecido, o choque de saúde vira choque de pobreza imediata.

Em seguida, a bomba-relógio previdenciária. Estudo de Rogério Nagamine, do FGV Ibre, indica que os MEIs são 12% dos contribuintes do INSS, mas respondem por cerca de 1% da arrecadação, com déficit atuarial já contratado estimado em R$ 711 bilhões (Outras Palavras). Menos de 40% dos registrados contribuem regularmente, e o impacto deve aparecer com mais clareza a partir de 2030 (Diário do Comércio).

É uma pinça. Quem contribui como MEI gera déficit, porque a contribuição é subsidiada. Quem não contribui chegará à velhice sem benefício e pressionará o BPC, que é assistencial. Some-se o envelhecimento acelerado. Se um Estado mínimo cortar também o BPC, a conta vai para as famílias, e a primeira variável de ajuste costuma ser a educação das crianças. Assim se fecha a armadilha intergeracional.

Por fim, o desdobramento político. Aqui a análise é mais especulativa. A narrativa meritocrática faz o fracasso ser vivido como individual, o que adia o conflito, mas acumula frustração. Em algum momento, ela tende a gerar demanda por proteção máxima, muitas vezes via populismo de sinal oposto, ou adesão a discursos que rejeitam as instituições como um todo. Argentina em 2001 e Chile em 2019 costumam ser citados como análogos, com a ressalva de que a causalidade é complexa e disputada.

Há também um efeito econômico agregado. Milhões de microunidades sem escala, capital, tecnologia ou crédito não geram ganho de produtividade. Geram subemprego com CNPJ.

A conta que chega: dívida, juros e gasto social

O problema fiscal brasileiro de hoje é, antes de tudo, um problema de juros, e não de gasto social.

 

A dívida bruta chegou a 82,5% do PIB em julho de 2026, R$ 10,9 trilhões, o maior nível desde abril de 2021. Em doze meses, o déficit primário foi de 0,67% do PIB, mas o déficit nominal chegou a R$ 1,24 trilhão, ou 9,34% do PIB (SBT News). Ou seja: de um rombo de mais de 9 pontos do PIB, menos de 1 ponto vem das contas primárias. O resto é juro.

O Brasil destina 8,8% do PIB a juros, o maior percentual do G20, e a IFI projeta dívida de 115% do PIB em 2036 (Poder360).

A dinâmica da dívida depende de dois fatores: o diferencial entre juro real e crescimento, que o governo não controla diretamente, e o resultado primário, que controla. Com juro real perto de 9% a 10% e crescimento em torno de 2%, o diferencial é muito desfavorável. Estimativas usuais indicam que estabilizar a dívida exigiria superávit primário entre 2% e 3% do PIB. Sair do patamar atual até lá significa algo como 3 pontos do PIB, cerca de R$ 400 bilhões por ano.

Disso decorre a conclusão central desta seção: nenhum corte primário isolado resolve. O ajuste só funciona se for crível o bastante para derrubar os juros. A queda dos juros é o maior “corte de gasto” possível.

Vale olhar onde está o dinheiro. Em 2026, a ordem de grandeza das principais rubricas federais é esta:

  • juros da dívida: cerca de R$ 1,3 trilhão, ou 8,5% do PIB (Portal Tela);
  • Previdência: cerca de R$ 1 trilhão, 42,9% da despesa da União;
  • renúncias tributárias: R$ 612,84 bilhões estimados (Correio da Manhã);
  • saúde: R$ 271,3 bilhões; educação: R$ 233,7 bilhões; Bolsa Família: R$ 158,63 bilhões (Movimento Econômico);
  • BPC: cerca de R$ 122 bilhões.

Três observações saltam aos olhos. As renúncias tributárias somam quase quatro vezes o Bolsa Família. Os juros já superam a Previdência. E há uma armadilha no próprio arcabouço atual: o Tesouro estima que o espaço das despesas livres será comprimido até se extinguir em 2030, se as regras dos pisos de saúde e educação não mudarem (Jornal Contábil). Qualquer vencedor terá de enfrentar as vinculações. A diferença está em como.

O que está em jogo no segundo turno

Nenhum dos dois programas apresenta, hoje, um caminho completo e quantificado para estabilizar a dívida.

No primeiro turno, Flávio Bolsonaro (PL) teve 47,03% dos votos válidos e Lula (PT), 45,16% (TSE). A decisão sai em 25 de outubro.

O programa de Lula propõe manter o arcabouço fiscal, com déficit projetado de 0,4% do PIB em 2026, além de política industrial e crédito público (Exame). Defende maior progressividade tributária, com mais participação das rendas altas (Agência Brasil). Também prevê regulamentar o trabalho por plataformas, com regras de remuneração e proteção previdenciária. A crítica principal é que o plano repete o modelo fiscal sem indicar mudança de rumo para conter o endividamento (Gazeta do Povo).

O programa de Flávio propõe um “tesouraço”: extinguir ao menos dez ministérios, cortar cargos comissionados e supersalários, adotar um teto rígido para gastos discricionários de todos os Poderes e retomar as desestatizações. Promete ainda rever a reforma tributária e zerar tributos sobre combustíveis e energia (Exame). A coordenadora econômica, Daniella Marques, falou em ajuste de 1,5% do PIB, cerca de R$ 190 bilhões (Agência Brasil). A crítica principal é que o documento não explica como fará tudo isso, e que cortar impostos e despesas ao mesmo tempo é contraditório para quem quer ajuste fiscal (Nexo).

Há uma ambiguidade central na proposta de Flávio. Segundo reportagem da Folha, a equipe econômica apresentou ao mercado a ideia de desvincular aposentadorias e BPC dos ganhos reais do salário mínimo e de acabar com os pisos de saúde e educação. As projeções citadas falam em R$ 1,1 trilhão e R$ 800 bilhões de economia em dez anos (Viva). O candidato negou, e a campanha diz que essas medidas não são posição oficial (Poder360). Sem essas rubricas, porém, é difícil chegar a 1,5% do PIB, sobretudo combinando o ajuste com corte de impostos.

Um último registro. Na sabatina de agosto na Globo, Lula afirmou que a dívida pública não o preocupa (Congresso em Foco). Em outubro, mudou o tom: disse estar preocupado, mas rejeitou o ajuste pelo lado da despesa e manteve a aposta no crescimento (ND Mais).

Se o ajuste recair sobre o social

Cortar rubricas sociais tem efeito pequeno no ano 1 e cumulativo depois. Vale olhar cada medida em debate, independentemente de quem venha a adotá-la.

 

Desvincular aposentadorias e BPC do salário mínimo. O benefício não cai em valores nominais: apenas deixa de acompanhar os ganhos reais do mínimo. Um exemplo ilustrativo: se o mínimo tiver ganho real de 2,5% ao ano por dez anos, o benefício corrigido só pela inflação passa a valer cerca de 78% do salário mínimo. Em muitos municípios pequenos do Norte, do Nordeste e do interior, aposentadorias e BPC são a principal fonte de renda da economia local. Em famílias multigeracionais de baixa renda, o benefício do idoso costuma ser a âncora do orçamento doméstico, inclusive para os netos.

Acabar com os pisos de saúde e educação. Corrigidos só pela inflação, esses gastos ficam congelados em termos reais, enquanto a demanda cresce. Na saúde, uma população que envelhece rápido significa gasto real menor por usuário: filas maiores, atraso na incorporação de tecnologias, pressão sobre os municípios. Na educação, o ponto mais sensível é a complementação da União ao Fundeb, que equaliza o gasto por aluno nas redes mais pobres. Os itens mais vulneráveis são creches e educação infantil, justamente onde a literatura aponta alguns dos maiores retornos sociais de longo prazo.

Há um argumento sério a favor da desvinculação: os pisos atrelados à receita crescem quando a arrecadação sobe, não quando a necessidade aumenta, e vinculação não garante qualidade. O debate legítimo é trocar o piso por regras de desempenho, e não simplesmente congelar.

Cortar o Bolsa Família. O espaço legítimo está na revisão cadastral e no combate a fraudes, defendido por técnicos de vários campos. Um corte profundo, porém, eleva a extrema pobreza e contrai o consumo justamente nas regiões mais pobres, porque o dinheiro do programa vai direto para o mercado local.

O efeito macroeconômico. Cortar transferências de quem consome toda a renda reduz o PIB no curto prazo, o que piora a razão dívida/PIB pelo denominador. A literatura se divide. A visão da “austeridade expansionista”, associada a Alberto Alesina, sustenta que um ajuste crível pelo lado da despesa compensa a contração com queda de juros e ganho de confiança. A visão crítica, associada ao trabalho de Olivier Blanchard e Daniel Leigh no FMI, mostrou que os multiplicadores fiscais foram subestimados depois de 2008. No Brasil, com juro real perto de 10%, o canal da credibilidade é potencialmente muito forte: esse é o melhor argumento do lado do ajuste.

Em linha do tempo, um ajuste concentrado no social tenderia a ser assim:

  • anos 1 e 2: ganho de credibilidade, possível queda dos juros futuros, impacto social pouco visível;
  • anos 3 a 5: a erosão real dos benefícios fica perceptível, o consumo popular desacelera no interior e no Nordeste, as filas do SUS crescem;
  • anos 5 a 10: somado ao déficit previdenciário do MEI, uma geração de idosos com renda declinante, sobrecarga das famílias e risco de reversão política pendular.

A lição francesa

Volto à Galeries Lafayette. A cultura de direitos que vi ali fez a França, e talvez seja a maior herança da Revolução e do Iluminismo. Mas o modelo que ela sustenta está difícil de manter.

Os números são duros. A dívida francesa passou de 97,4% do PIB em 2019 para 117,4% em 2025, e o déficit projetado para 2026 é de 5,3% do PIB, o mais alto da Zona do Euro (Crusóe). O país não aprova um orçamento equilibrado desde 1974 (Renascença). Para não cair, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu suspendeu a reforma da previdência que elevava a idade mínima de 62 para 64 anos (Jovem Pan/AFP). A idade média efetiva de aposentadoria na França é de 60,7 anos, contra 64,4 na média da OCDE (CNN Brasil).

Duas qualificações ajudam a entender o impasse. A primeira: a arquitetura do welfare francês é de 1945, não de 1789. A Revolução deu a moldura dos direitos. O Estado de bem-estar nasceu no pós-guerra, desenhado para uma economia industrial em expansão, com demografia jovem e emprego estável. As três condições desapareceram.

A segunda: consciência de direitos não é o mesmo que confiança cívica. Yann Algan e Pierre Cahuc, em La société de défiance, argumentam que o modelo francês, corporativo e segmentado por categorias, gera baixa confiança social: cada grupo defende seu estatuto e desconfia que o outro leva vantagem. Os nórdicos têm alta confiança e, por isso, aceitam impostos altos e reformas.

As causas da crise são difusas: ineficiência na composição do gasto, globalização e desindustrialização, pressão por menos impostos. Acrescento uma que me parece central: o financiamento via encargos sobre a folha. Ele encarece o emprego formal, gera desemprego estrutural, e o desemprego exige mais gasto social. É o mesmo mecanismo da CLT brasileira, que empurra trabalhadores para a informalidade.

 

Protestos e motins em Paris em 17 de outubro de 2026. Foto: Jorge Jaramillo – Creative Commons

Mas a dicotomia entre “manter o welfare sem caixa” e “se entregar ao capitalismo desenfreado” é falsa.

Os nórdicos não têm a grana por sorte: eles a construíram. Na Dinamarca, a receita tributária é de 44,9% do PIB, a dívida de 29,7% e o superávit fiscal de 3,5% (CEIC). A Suécia, após a crise dos anos 1990, reformou a previdência e adotou teto de gastos e meta de superávit. A Dinamarca combina demissão fácil, seguro-desemprego generoso e requalificação: protege pessoas, não empregos. É um paradoxo: Estado de bem-estar grande com economia muito liberal.

Os EUA não têm um welfare pequeno: têm um welfare privatizado. Somando gasto privado e incentivos fiscais, o gasto social líquido americano chega a 30% do PIB, comparável ao europeu (OCDE). A diferença está na distribuição: o acesso depende de emprego e renda.

A Coreia do Sul mostra o custo do welfare tardio. O país gastava apenas 12,2% do PIB em benefícios sociais (Fórum Econômico Mundial) e tem uma das maiores taxas de pobreza entre idosos da OCDE: uma geração que construiu o milagre econômico sem rede de proteção.

Há também uma diferença decisiva entre França e Brasil: o custo do dinheiro. A França se financia em euros, com o BCE por trás. O Brasil se financia a uma Selic perto de 14%. Por isso, a dívida brasileira, menor em relação ao PIB, é na prática mais cara. A França pode errar por mais tempo. O Brasil paga o erro em tempo real, na curva de juros.

Piso e teto: onde um ajuste liberal precariza e onde não

O Brasil não atingiu a maturidade econômica dos países europeus, mas seus programas sociais focaram em dar o básico. Uma visão liberal precarizaria a vida das pessoas? Depende de onde ela é aplicada, porque o welfare brasileiro tem duas camadas.

 

Rio de Janeiro (RJ), 15/08/2024 - Espaço de Desenvolvimento Infantil(EDI) Claudio Cavalcanti, em Botafogo. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O piso é o básico: Bolsa Família, BPC, SUS, educação básica, Fundeb, merenda, creche. É relativamente barato. O Bolsa Família custa cerca de 1,2% do PIB. Aqui, a lógica liberal precarizaria de forma direta. Na Europa e nos EUA, há colchões que amortecem a retirada do Estado: poupança, patrimônio, previdência privada, crédito barato. Para a família brasileira de baixa renda, esse colchão não existe. Cortar o piso é transferir o risco a quem não pode absorvê-lo.

O teto é o welfare dos incluídos: aposentadorias elevadas e precoces de regimes especiais, supersalários e penduricalhos, renúncias tributárias de mais de R$ 600 bilhões, subsídios a setores organizados, emendas parlamentares. Aqui, a lógica liberal não precariza ninguém vulnerável e pode até financiar o piso. É a parte do Brasil que mais se parece com a França: direitos adquiridos de grupos organizados, defendidos com eficiência.

O cenário de maior risco seria importar o pior dos dois modelos: a patologia francesa no teto, com direitos intocáveis para os incluídos, e o Estado mínimo americano no piso, sem a riqueza americana nem a coesão nórdica para compensar.

Uma ressalva de equilíbrio, porém: a inação também precariza. Uma crise fiscal desordenada pode ser pior que um ajuste mal feito. Inflação e juros altos são os impostos mais regressivos que existem. A recessão de 2015 e 2016 elevou desemprego e pobreza sem que nenhum programa social tivesse sido formalmente cortado. O dilema real não é “ajustar ou proteger”. É quem paga o ajuste, e em que velocidade.

Há ainda uma prioridade que a comparação internacional ilumina. O Brasil gasta, proporcionalmente, muito mais com idosos do que com crianças, e a pobreza infantil é bem mais alta que a pobreza entre idosos. Os nórdicos investem pesadamente na primeira infância, com creche universal e licenças parentais longas. Se há uma lição de bem-estar a importar, talvez seja essa: a rede de proteção começando pelo início da vida. Quem acompanha de perto o trabalho com crianças em periferias, como o da ONG em que atuo, sabe que é ali que se decide boa parte do futuro de uma pessoa.

Conclusão: Estado menor nos privilégios, maior na capacidade

O risco central não é a liberalização em si. É a sequência: retirar proteção antes de construir capacidades, como educação de qualidade, crédito acessível, segurança jurídica e instituições que resistam à captura.

A configuração mais perigosa para o Brasil combinaria três elementos: Estado mínimo nos serviços aos vulneráveis, Estado capturado nos privilégios dos organizados e uma narrativa meritocrática que individualiza o fracasso. O desfecho provável seria uma geração descapitalizada e desprotegida, uma crise previdenciária e assistencial a partir dos anos 2030 e forte instabilidade política.

A França ensina quatro coisas ao Brasil:

  1. Direitos sem base fiscal viram dívida, e dívida vira crise política.
  2. Proteger pessoas, e não estatutos, é mais sustentável e mais inclusivo.
  3. Financiar o welfare pela folha exclui quem está fora dela, e no Brasil isso é cerca de 40% dos trabalhadores.
  4. A legitimidade da reforma importa tanto quanto o conteúdo. A reforma francesa de 2023, aprovada sem votação parlamentar, não se sustentou. A brasileira de 2019, negociada no Congresso, se manteve.

Há três leituras sérias em disputa, e cada uma tem evidência a seu favor:

  • A leitura de esquerda atribui a crise europeia à competição tributária global e à baixa tributação do capital. A saída seria tributar mais os mais ricos. A austeridade, nessa visão, alimentou a extrema-direita.
  • A leitura liberal vê na França a prova de que direitos sem disciplina fiscal terminam em crise. O Brasil deveria reformar antes que o mercado o force, a um custo social muito maior.
  • A leitura social-democrata reformista, de inspiração nórdica, sustenta que o tamanho do Estado importa menos que sua qualidade, sua base de financiamento e a confiança social que o sustenta.

Minha conclusão é que o caminho mais promissor atravessa o espectro político: um Estado menor nos privilégios e maior na capacidade. Menos subsídio a empresas e corporações, mais eficiência em educação básica, saúde e segurança, e uma rede de proteção portátil, desvinculada da carteira assinada, para quem trabalha por conta própria.

A prosperidade individual é uma aspiração legítima. Mas, num país com as nossas fragilidades, ninguém deveria ter de apostar nela sem rede.

Fontes

Trabalho, MEI e Previdência

Dívida, orçamento e programas

França e comparações internacionais

 

 

https://bernardocarvalho.substack.com/p/prosperidade-sem-rede-estado-minimo?r=2ld5eo

 

 

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