Quarto mandato: a vitória é da democracia, agora
é hora de ousar
A eleição de 26-10-206 mostrou que o Brasil não aceita entregar o
futuro ao medo. Mas confiança popular não é cheque em branco: é compromisso.
Eis uma agenda para que o próximo mandato seja o melhor da nossa história.
Uma vitória maior que um nome
Os números contam uma história de
fôlego curto e de enorme significado. Foram 64.256.232 eleitores, ou 51,78% dos
124.082.273 votos válidos, com uma vantagem de 4.430.191 votos (3,57%). Essa
margem foi construída por quem decidiu fazer diferença: os idosos, os jovens e
os eleitores que não haviam comparecido, votado em branco ou anulado no
primeiro turno.
Por isso, a leitura mais honesta
do resultado é que não foi apenas Lula quem ganhou. Venceu o Brasil que se
recusou a trocar o futuro pelo medo. Venceram a democracia, a civilidade e a
vida. O país preservou o direito de seguir escolhendo o próprio destino em
liberdade.
Essa escolha derrotou, nas urnas,
um pacote de ameaças que marcou os últimos anos: o golpismo, o autoritarismo, o
ataque às instituições, o negacionismo, a mentira como método, a banalização da
violência, o racismo, a misoginia, a homofobia, o capacitismo e o etarismo.
Derrotar é o primeiro passo. Substituir exige projeto.
Responsabilidade redobrada, mobilização
permanente
O momento não é só de entusiasmo
e euforia. É de responsabilidade. Quem vota com esperança cobra resultados, e a
melhor resposta a essa cobrança é um governo ousado, eficaz, eficiente e
efetivo, com participação popular de verdade.
Nesse sentido, a mobilização das
ruas não pode terminar na apuração. Ela precisa continuar, com frequência, para
proteger a democracia, fortalecer a consciência política do povo, defender
governos comprometidos com as causas sociais e reduzir as desigualdades sociais
e regionais. Que aprender a se mobilizar com tanta dedicação seja uma fase de
muitas conquistas.
O Brasil precisa e quer mais. As
propostas a seguir, organizadas em seis eixos, são uma contribuição para esse
debate: medidas de governo e mudanças legislativas que combinam justiça fiscal,
exemplo do Estado, participação popular, ética na política, transparência e
qualidade de vida.
Eixo 1. Contas públicas: atacar o juro, não o
pobre
O problema fiscal brasileiro de
hoje é, antes de tudo, um problema de juros, e não de gasto social. A queda dos
juros é o maior “corte de gasto” possível, e eles já pesam mais no orçamento do
que a Previdência. Se o objetivo é equilibrar as contas, é aí que está o maior
retorno.
•
Aliviar a
dívida pública. Alongar o prazo de vencimento dos títulos, estabelecer um
limite de 5% do PIB para amortização e juros e realizar a Auditoria da Dívida
Pública, prevista no Art. 26 do Ato das Disposições Constitucionais
Transitórias de 1988.
•
Domar a
especulação. Regulamentar o fluxo de capitais externos, com finalidades,
prazos de internalização e reinvestimento, para reduzir os efeitos nocivos da
lógica de cassino.
•
Rever as
renúncias fiscais. As renúncias tributárias somam quase quatro vezes o
Bolsa Família. A proposta é reduzir 5% ao ano do total de desonerações,
benefícios, incentivos e isenções (R$ 860 bilhões em 2025), sem renovar nem
prorrogar, até zerar o valor atual em 20 anos, com regras e parâmetros claros
para os novos incentivos realmente necessários.
•
Cobrar de
quem pode mais. Regulamentar o Imposto sobre Grandes Fortunas, em
cumprimento ao inciso VII do Art. 153 da Constituição (ADO 31), e cobrar IPVA
de helicópteros, lanchas, iates, embarcações luxuosas e jatinhos.
•
Proteger
a mesa do brasileiro. Manter estoque regulador de alimentos essenciais, com
monitoramento preventivo da necessidade de importação, da respectiva tributação
e dos riscos de exportação, desabastecimento e inflação, e tributar a
importação de arroz, feijão, milho, leite, carnes, frangos e ovos.
O argumento central é de justiça:
o ajuste não deve recair sobre quem depende do Estado para comer, estudar e se
tratar, mas sobre juros, privilégios e rendas que hoje pagam pouco.
Eixo 2. Um Estado que dá o exemplo
Nenhum governo pede sacrifício
com legitimidade se não começa por si mesmo. Esta é a agenda do exemplo, com
medidas simples de entender e fáceis de fiscalizar:
•
Reduzir o GSI/PR, que hoje tem 1.007 servidores
(1.003 militares), para no máximo uma centena, e revisar a dotação de pessoal
em todas as áreas para eliminar sobreposições, excessos e carências.
•
Diminuir viagens de servidores federais,
priorizando reuniões virtuais, e reduzir à metade as viagens de ministros em
aviões da FAB, otimizando deslocamentos com pelo menos duas autoridades.
•
Reduzir em 50% as verbas e auxílios a
parlamentares federais e seus gabinetes, e em 50% os recursos dos Fundos
Partidário e Eleitoral.
•
Reduzir 5% ao ano o valor total das emendas
parlamentares (R$ 60 bilhões em 2025) por cinco anos, e abolir a execução
direta de recursos por emendas, caminhando para o fim das emendas aos
orçamentos da União, dos Estados e dos Municípios, apontadas como fonte de
desvios e de um balcão de negócios.
•
Extinguir o uso da “morte ficta” pelas Forças
Armadas.
•
Alterar o Art. 19 da Lei de Responsabilidade
Fiscal para limitar a despesa com pessoal à receita corrente líquida: 20% na
União, 30% nos Estados e 40% nos Municípios.
•
Acabar com os recessos de dois meses de juízes,
promotores e serventuários, que passariam a ter 30 dias de férias anuais, em
escalas, e extinguir os Regimes Próprios de Previdência Social.
O rigor vale para os dois lados
do balcão. Por isso, também se propõe cruzar o CPF dos beneficiários do Bolsa
Família e do BPC com chaves Pix que movimentam mais de R$ 5 mil por mês, para
identificar irregularidades e cancelar benefícios indevidos. Proteger quem
precisa significa também cuidar para que o dinheiro chegue a quem precisa.
Eixo 3. Mais povo na decisão
A democracia não pode ser um
evento de quatro em quatro anos. Para que o cidadão seja protagonista, é
preciso abrir canais permanentes:
•
Orçamento
Federal Participativo, para que a população ajude a definir prioridades.
•
Comunicação
em mão dupla. Unificar e agilizar a comunicação do governo com a população,
ouvindo demandas, reclamações e sugestões, com amplo uso de meios digitais, e
manter diálogo constante com empresários, agronegócio, bancos, educadores,
cientistas, mulheres e juventude, ouvindo as ruas, as redes e as bases.
•
Iniciativa
popular facilitada. Reduzir para 0,1% do eleitorado nacional o apoio mínimo
para projetos de lei de iniciativa popular (alteração do § 2º do Art. 61 da
Constituição).
•
Instrumentos
de democracia direta. Implementar a revogação/veto popular (PEC 80/2003),
as consultas populares (PLS 269/2005 e 82/2003) e os plebiscitos e referendos
(PL 4.718/2004 e 6.928/2002), para dar efeito prático à soberania popular
consagrada no Art. 14.
Eixo 4. Política com mais preparo, menos
privilégio e mais coerência
Muitos eleitos desconhecem o
significado do mandato e as atividades do cargo. Isso não é discriminação, é
exigência mínima de preparo. O conjunto de medidas abaixo busca elevar a
qualidade da representação e a confiança do eleitor:
•
Preparo e
compromisso. Curso obrigatório de Formação Básica em Gestão Pública, de 120
horas-aula, ministrado por universidades federais, antes do registro de
candidatura (Constituições, processo legislativo, transparência, orçamento,
responsabilidade fiscal, controle social e outros temas). Não se trata de
exigir grau de escolaridade. Também se propõe divulgar as propostas dos
candidatos 90 dias antes da eleição, condicionando o exercício do mandato ao
seu cumprimento, e exigir de candidatos ao Executivo um Programa de Metas com
prioridades, indicadores e orçamentos estimados, como já ocorre na Lei Orgânica
de São Paulo.
•
Partidos
mais democráticos. Exigir que conste nos estatutos regras mínimas de
fidelidade partidária, formação política, transparência e participação dos
filiados nas decisões (Art. 17 da Constituição Federal), elevar para cinco anos
a filiação mínima para candidaturas (com escolha em votação interna) e dividir
o Fundo Partidário em três terços: igualitário, proporcional à bancada federal
e proporcional às bancadas estaduais e municipais.
•
Candidaturas
limpas. Cumprir de fato a Lei Complementar 135/2010 antes do registro, coibindo
a participação em eleições de quem depois é afastado, com enorme prejuízo para
a sociedade.
•
Voto mais
próximo do eleitor. Adotar o voto distrital misto (PL 9.212/2017), que
favorece a coerência do eleito e a cobrança do eleitor.
•
Campanhas
mais honestas e baratas. Propaganda em rádio e TV apenas com gravação em
estúdio, centrada em propostas; fim de carros de som, cavaletes, bandeiras e
carreatas; proibição de pagamento a ativistas de campanha, com fiscalização
rigorosa.
•
Isenção
das carreiras de Estado. Proibir candidaturas e atuação político-partidária
de policiais, bombeiros, delegados, juízes, promotores, desembargadores e
procuradores, que devem agir com isenção.
•
Ciclo
eleitoral mais claro. Mandatos de cinco anos (reduzindo o dos senadores),
fim da reeleição consecutiva, eleições anuais escalonadas (vereadores e
deputados estaduais/distritais no 1º ano, prefeitos no 2º, deputados federais e
senadores no 3º, governadores no 4º e presidente no 5º), fim dos suplentes de
senador e proibição de que eleitos para o Legislativo assumam cargos no
Executivo.
Eixo 5. Justiça, Legislativo e controle:
transparência que funciona
Uma democracia forte precisa de
instituições rápidas, claras e que respondam pelos seus atos.
•
Justiça.
Transformar o STF em uma verdadeira Corte Constitucional, com composição,
mandato e quórum compatíveis, dar mais celeridade, transparência e
responsabilização a todo o sistema de Justiça, reduzir privilégios processuais
e abolir a imunidade processual para crime comum nos três poderes e nos três
níveis da federação.
•
Legislativo
mais objetivo. Obedecer à regra “primeiro a entrar, primeiro a sair” na
pauta, sem concentração do poder de agenda; cumprir o prazo de até seis meses
para aprovar ou rejeitar propostas; e articular com a OAB, o CNJ, instituições
de ensino superior e organizações da sociedade civil sem vínculos partidários a
revisão dos regimentos internos, para que parlamentares não legislem em causa
própria.
•
Profissionalização.
Abolir a nomeação para cargos no Legislativo e no Judiciário, com assessoria e
consultoria realizadas exclusivamente por servidores concursados.
•
Licitações
com controle preventivo. Alterar a Lei 14.133/2021 para submeter minutas de
editais acima de determinado valor a análise prévia dos Tribunais de Contas, em
até 30 dias, antes da publicação, para que o controle seja proativo e
tempestivo, e não tardio e reativo. Propõe-se também que os editais sejam
publicados com planilhas, especificações e quantitativos, sem preços nem valor
estimado, com códigos e composições SINAPI/SICRO. A pesquisa de preços continua
sendo feita e integra o processo, mas não é divulgada.
Eixo 6. Vida digna: segurança, saúde, trabalho,
ambiente e educação
No fim, o que importa é o dia a
dia das pessoas.
Segurança. Aprovar imediatamente a PEC da Segurança, ampliar a
monitoração das fronteiras para combater o contrabando e o tráfico de drogas,
armas e pessoas, e adotar medidas contra a posse indiscriminada de armas. No
ambiente digital, regulamentar big techs e redes sociais, porque o crime no
mundo digital deve ser tratado como o crime na vida real.
Saúde. Melhorar a gestão do SUS com um Prontuário Eletrônico Único
da Saúde (PEUS), reunindo dados como identificação, tipo sanguíneo, doenças,
alergias, medicamentos de uso contínuo, histórico de atendimentos, prescrições
e procedimentos, além da manifestação digital do cidadão, que atesta o
atendimento recebido e avalia o serviço e os profissionais.
Renda e trabalho. Implementar um Programa de Renda Mínima e ampliar
os investimentos nas economias digital, verde e criativa, com mais trabalho e
renda. Isso vem acompanhado de um alerta sobre o empreendedorismo precário, que
merece medidas educativas e esclarecedoras:
•
62% de quem trabalha exclusivamente por
aplicativos usa uma única plataforma, com um único cliente que fixa o preço
sozinho, algo mais parecido com monopsônio do que com livre mercado. O
motorista não contabiliza depreciação, manutenção, IPVA, seguro e licenças, e
sem contribuição regular fica sem auxílio-doença: o SUS absorve o custo médico,
mas a família absorve a renda perdida.
•
Os MEIs são 12% dos contribuintes do INSS e
respondem por cerca de 1% da arrecadação, com déficit atuarial já contratado
estimado em R$ 711 bilhões. Menos de 40% dos registrados contribuem
regularmente, e o impacto deve ficar mais claro a partir de 2030.
•
Milhões de microunidades sem escala, capital,
tecnologia ou crédito não geram ganho de produtividade. Geram subemprego com
CNPJ.
Meio ambiente e saneamento. Levar saneamento básico a 100% dos
municípios até 2035, fazer cumprir a separação de resíduos sólidos em
residências, empresas, repartições e escolas (Lei 12.305/2010, Decreto
7.404/2010 e Resolução CONAMA 275), implementar a coleta seletiva de recicláveis
e substituir plásticos em embalagens por materiais biodegradáveis e renováveis,
com proibição de importar produtos que não sigam o mesmo padrão.
Educação para a cidadania. Incluir nos currículos escolares noções
de Constituição, Código Civil e Penal, Código de Defesa do Consumidor,
Estatutos da Criança e do Idoso, Lei Maria da Penha, trânsito, orçamento
participativo, higiene, alimentação saudável, ecologia, cooperativismo,
energias alternativas e funcionamento dos três poderes. Um povo que conhece
seus direitos e o funcionamento do Estado é um povo mais difícil de enganar.
Por que vale a pena apostar nessa agenda
Primeiro, porque ela é coerente.
Ataca a raiz dos problemas, como juros, renúncias, privilégios e opacidade, em
vez de punir quem já tem pouco.
Segundo, porque ela é verificável,
com metas claras permitem acompanhamento, avaliação e cobrança.
Terceiro, porque ela dá o
exemplo. Pede mais do Estado e da política antes de pedir da sociedade.
Quarto, porque ela fortalece o
que a eleição mostrou ser mais precioso: a democracia. Participação,
transparência e instituições que funcionam são a melhor vacina contra o
autoritarismo.
Há ainda um aviso que o debate
sobre trabalho e segurança deixa claro: onde o Estado sai, alguém entra. No
Brasil urbano, esse alguém já tem nome. São as milícias e facções que vendem
segurança, gás, internet, transporte e crédito. Um Estado presente, justo e
transparente é a alternativa a elas.
O convite
O voto decidiu quem governa. Mas
só a participação decide como se governa. Que o quarto mandato seja não apenas
a continuidade de uma vitória, mas o começo de um novo pacto: mais justo na
tributação, exemplar na gestão, aberto à voz do povo, rigoroso com privilégios
e firme na defesa da democracia.
Não basta torcer. É preciso
ocupar o debate, cobrar compromissos e seguir mobilizado. O Brasil quer mais, e
merece.
EDIVAN BATISTA CARVALHO
Fortaleza (CE)
Análise Econômico-Financeira, Crédito e
Planejamento.
edivanbatista@yahoo.com.br





